26 de abril de 2022

RIO DE JANEIRO/RJ - PM ADMITE TER ATIRADO EM JOVEM, QUE FALECEU

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PM admite ter atirado em jovem no Jacarezinho e alega que estava 'diante de uma iminente e injusta agressão'

A vítima
Um dos policiais do Batalhão de Choque (BPChoque) que estava na favela do Jacarezinho, na Zona Norte, na noite desta segunda-feira, dia 25, quando Jhonatan Ribeiro de Almeida, de 18 anos, foi morto, admitiu que atirou contra o rapaz. Em seu depoimento na Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), na tarde desta terça-feira, o cabo da PM, identificado apenas como Diego, disse que estava num patrulhamento de rotina, ao longo da linha férrea, quando relatou ter visto Jhonatan "comercializando drogas". Segundo ele, o jovem teria puxado uma arma da cintura e que, por isso, alegou ter atirado "diante de uma iminente e injusta agressão". A família de Jhonatan negou que a vítima tivesse envolvimento com o tráfico de drogas.

Jhonatan foi atingido por um único tiro, informou a polícia, próximo ao pontilhão, no Jacarezinho, primeira comunidade a receber o porgrama estadual Cidade Integrada, em janeiro deste ano. Ainda segundo o cabo da Polícia Militar, "a guarnição tentou prestar socorro" ao rapaz, mas foram agredidos por moradores que atiraram pedras contra eles. Diego disse ainda em seu depoimento que, "tendo em vista a multidão que os agredia injustamente, saíram para buscar reforço". O PM contou que, ao retornar com mais policiais, o corpo de Jhonatan já não estava mais no local. No entanto, Diego afirmou que foi encontrado um saco com drogas e um simulacro de arma de fogo no local.

A DHC continua ouvindo, na tarde deste terça-feira, outros policiais militares que estavam no Jacarezinho, onde a vítima foi baleada e morta. O cabo Diego não disse, em seu depoimento, que houve confronto.

Na chegada ao Instituto Médico-Legal (IML), na manhã desta terça-feira, a mãe de Jhonatan, Monique Ribeiro dos Santos, disse que estava em casa no momento em que o filho foi baleado. Ela disse que o filho não tinha a carteira de trabalho assinada porque, em breve, se apresentaria para o alistamento no Exército. Por isso, segundo a família, ele trabalhava com uma tia vendendo roupas, para ajudar na criação do filho dele, Israel, de 4 meses. A mãe afirmou mais uma vez que Jhonatan não tinha nenhum envolvimento com o tráfico.

O avô de Jhonatan questiona essa versão.

— Eles vieram e o garoto estava conversando. O garoto se assustou e fez a menção de correr, e ele atirou. E tanto é, que agora estão dizendo que ele estava com droga, estava com réplica de arma. E porque todas as vezes que eles matam, na comunidade, quando é traficante, els pegam e levam o corpo. Eles fizeram isso? Eles atiraram, correram, foram embora e quem levou o corpo lá foi o pessoal da comunidade. Porque dessa vez a droga foi só aparecer agora? E eles foram aparecer com esse kit flagrante, que é um kit que eles usam, que todo mundo sabe. Só não sabe quem não quer — diz Carlos Roberto.

Relatos indicam que o rapaz chegou a ser socorrido para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Manguinhos, comunidade vizinha ao Jacarezinho. Segundo a Secretaria municipal de Saúde (SMS), Jhonatan já chegou em parada cardiorrespiratória à unidade e não resistiu ao ferimento.

Veja a nota da Polícia Militar na íntegra:

"A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar informa que, na noite de segunda-feira (25/04), equipes do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq) participaram de uma ocorrência na Comunidade do Jacarezinho, na qual um homem foi ferido por projétil de arma de fogo. Segundo os policiais, não foi possível prestar socorro ao ferido em função da reação de um grupo de moradores que arremessaram pedras e garrafas em direção à equipe. Com o ferido, havia certa quantidade de drogas e um simulacro de arma de fogo. As equipes comunicaram a ocorrência de imediato à Delegacia de Homicídios da Capital. Paralelamente, o comando da Corporação determinou instauração de procedimento apuratório na Corregedoria Geral da SEPM. As armas empregadas na ocorrência já estão à disposição da perícia."

O advogado do caso e coordenador do Instituto de Defesa da População Negra (IDPN), Joel Luiz Costa, acompanha nesta tarde o depoimento da família na Delegacia de Homicídios do IML. Ele informou que o IDPN também vai dar assistência na continuidade da investigação acionando o Ministério Público e a ouvidoria da Defensoria Pública.

Ele relembrou a operação da Polícia Civil no Jacarezinho, há pouco menos de um ano, que matou 28 pessoas.

— É a banalização da morte no território de favela, um território racializado. Não há justificativa, nem a justificativa ‘padrão’ de [os policiais] terem sido recebidos a tiros foi alegada pela Polícia, então, não há nenhum lastro que dê lógica ao que aconteceu, além da banalização da morte. A gente, do IDPN, vai acompanhar tudo isso.
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