12 de março de 2022

GARIMPO ILEGAL - PF DEMONSTRA MODUS OPERANDI DE ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA

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Pistoleiros, identidades falsas e dinheiro vivo: PF descreve como funciona mineração em terras indígenas

Adria Karoline, Folha de Progresso/PA

Primeiro, pistoleiros ameaçam moradores de zonas rurais onde há potencial para mineração. Em seguida, um emaranhado de empresas de fachada e pessoas com identidades falsas se articulam para extrair ilegalmente o ouro em terra indígena e vendê-lo para grandes centros do Brasil, como São Paulo e Goiás, ou até mesmo para a Europa.

Por último, o dinheiro circula através de saques em dinheiro vivo que chegam a cifras de milhões de reais e resultam na compra de bens de luxo, geralmente colocados em nome de laranjas.

Esse modus operandi é descrito pela Polícia Federal em uma das mais recentes investigações sobre mineração ilegal no sul do Pará, situada principalmente na terra indígena Caiapó.

A operação para desbaratar essa organização criminosa foi deflagrada em outubro pela PF, batizada de Terra Desolata, e as investigações continuam em andamento.

Desde a semana passada, o governo do presidente Jair Bolsonaro lançou uma ofensiva para acelerar a aprovação de um projeto de lei que autoriza a mineração em terras indígenas e também libera a construção de hidrelétricas e plantação de transgênicos nessas áreas.

O líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), protocolou nesta quarta-feira um pedido de urgência para a votação do Projeto de Lei 191/2020. O governo e a bancada ruralista argumenta que a medida irá tirar as atividades de exploração da ilegalidade e das mãos do crime organizado, enquanto ambientalistas e entidades indígenas afirmam que o projeto irá incentivar ainda mais a invasão criminosa do território dos povos originários.

A investigação começou quando um morador da região sul do Pará procurou a Polícia Federal para relatar ter recebido uma oferta de dinheiro para permitir a exploração de minérios em seu território. “Diante da negativa, os interessados na garimpagem ilícita passaram a fazer ameaças e intimidações, inclusive por meio de pistoleiros”, escreveu o delegado da PF Tiago Lima da Silveira, ao solicitar à Justiça Federal prisões e busca e apreensão contra os alvos.

A PF, então, solicitou ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) dados sobre a movimentação financeira dos suspeitos e descobriu fluxo milionário de recursos, o que demonstrava a alta rentabilidade da atividade ilícita. Um dos alvos, por exemplo, movimentou R$ 125 milhões em um período de três anos, além de ter registrado saques em espécie de R$ 16 milhões.

Os investigados são suspeitos de crimes ambientais, lavagem de dinheiro, crimes contra a ordem econômica e organização criminosa. Alguns dos alvos também já tinham sido investigados em outros inquéritos. Entre eles, está um policial militar que foi preso pela Polícia Civil em 2016 acusado do sequestro e morte de um pecuarista. E tambem foi citado em um inquérito da Polícia Federal de 2015 por tráfico de drogas e armas no Sul do Pará. Segundo as investigações, ele seria dono de máquinas retroesvadeiras que atuavam em garimpos na terra dos Caiapó.

Eles até mesmo exibiam nas redes sociais imagens da atividade de exploração de ouro ilegal ou dos bens de luxo. Um dos alvos do inquérito, Hailton Monteiro de Almeida, teria movimentado cerca de R$ 4 milhões em um período de quatro meses e publicou foto em uma rede social mostrando duas barras de ouro, segundo a PF.

Na foto publicada nas redes sociais, barras de ouro são exibidas por Haiton. (Reprodução/ Internet), via revista Cenarium

“Hailton não possui qualquer vínculo empregatícios, nem é sócio ou administrador de qualquer empresa. Entretanto, exibe nas redes sociais veículos de luxo, aeronaves, maquinas do tipo escavadeiras hidráulicas, e até mesmo barras de ouro. Na cidade de Redenção/PA é fato notório que Hailton explora garimpo ilegal de ouro, inclusive em Terras Indígenas”, diz o relatório. A defesa do alvo não foi localizada.

Uma das empresas compradoras, sediada em São Paulo, funciona como filial de uma empresa da Itália e serviria para adquirir o ouro ilegal no Brasil e enviá-lo para a Europa, aponta a investigação. Nessas transações, o Coaf detectou movimentações no total de R$ 2 bilhões.

“Veio à luz uma complexa organização criminosa especializada em extrair ilegalmente o ouro na região Sul do Pará, vendê-lo para grandes centros no Brasil, como Goiânia/GO e São Paulo/SP. ‘Lavá-lo’ para, por fim, exportá-lo para Europa, principalmente Itália”, diz o relatório.

A operação, cujo nome em português siginifica “terra devastada”, chegou a ser deflagrada com 62 mandados de busca e apreensão e 12 de prisão preventiva em 10 estados – Pará, Amazonas, Goiás, Roraima, São Paulo, Tocantins, Maranhão, Mato Grosso, Rodônia e Distrito Federal.
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