CORRUPÇÃO - 1/4 DO CENTRÃO, BASE DE BOLSONARO NA CÂMARA, É FORMADO POR RAPOSAS

Entre os cerca de 200 deputados que compõem as bancadas do bloco informal na Câmara, ao menos 60 respondem por crimes ou ações por improbidade administrativa


Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo


Imagem: Internet

Enquanto os bolsonaristas vão ao delírio com ações da Polícia Federal nos estados do Pará e Rio de Janeiro, dois redutos que não leem a cartilha bolsonarista, os fieis seguidores, muito convenientemente, vão 'esquecendo' que nas bancadas dos partidos que formam o Centrão, nova base de apoio ao presidente Jair Bolsonaro no Congresso, um em cada quatro deputados é investigado ou responde por crimes ou ações por improbidade administrativa com dano ao erário e enriquecimento ilícito. 

Dos cerca de 200 deputados que formam o bloco informal na Câmara, ao menos 60 possuem implicações na Justiça com acusações e suspeitas que envolvem desde lavagem de dinheiro e corrupção a crimes ambientais. E são esses indicados que estão a assumir, ou seus subordinados, grandes cargos que detêm muitos bilhões de reais, como o FUNDEF, do Ministério da Educação.

Com o agravamento da crise política, o Planalto passou a fazer uma investida explícita para atrair apoio das siglas do Centrão em troca de cargos. As negociações se chocam com o discurso contra a “velha política” e o “toma lá, dá cá” no Congresso, adotado por Bolsonaro desde a campanha eleitoral. Esse movimento se intensificou após Sérgio Moro deixar o Ministério da Justiça e Segurança Pública acusando o presidente de tentar interferir indevidamente na Polícia Federal. 


O deputado federal e líder do Progressistas na Câmara, Arthur Lira (AL) Foto: Agência Câmara

Na última semana, essas ações criminais avançaram sobre dois dos principais líderes do Centrão. O presidente do Solidariedade, deputado Paulinho da Força (SP), foi condenado a dez anos e dois meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por crimes contra o sistema financeiro nacional, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Já o líder do Progressistas (antigo PP), Arthur Lira (AL), foi denunciado por corrupção passiva pela Procuradoria-Geral da República (PGR) em uma investigação da Operação Lava Jato.

Lira e Paulinho da Força lideram as agremiações que fazem parte do Centrão mais atingidas por investigações ou denúncias. Entre os sete partidos do bloco, o Solidariedade tem a bancada com o maior número de deputados comprometidos na Justiça. Seis dos 14 parlamentares, mais de 40%, são alvo de processos judiciais que questionam sua conduta no setor público. A maior parte dos casos é referente a improbidade administrativa, com suspeita de danos aos cofres públicos.

O Progressistas vem em seguida, com 38% de seus representantes na Câmara implicados em processos que apontam ou investigam desde lavagem de dinheiro até fraude em licitação. Outras siglas que integram o Centrão são PTB (33% da bancada investigada) – que tem o ex-deputado Roberto Jefferson como presidente nacional –, PSD (25%), Republicanos (25%), DEM (27%) e PL (23%). 

No total, os casos de improbidade administrativa e dano ao erário correspondem a mais da metade dos processos levantados. Fraude em licitação e falsidade ideológica também estão entre os crimes mais comuns pelos quais os parlamentares respondem.

O deputado Paulinho da Força, do Solidariedade. Foto: Divulgação

O levantamento do Estadão não leva em conta processos já extintos, ações de danos morais ou execuções fiscais. A inclusão desses casos aumentaria o número de processados no Centrão de 60 para 77 deputados.

Fora do levantamento, há situações em que inquéritos foram arquivados por falta de provas. É o caso do deputado Fábio Faria (PSD-RN), indicado por Bolsonaro na quarta-feira passada para chefiar o recém-criado Ministério das Comunicações.

Deputado Fábio Faria, nomeado para assumir Ministério das Comunicações. Foto: LUIS MACEDO AGENCIA CAMARA

Em 2017, Faria foi citado em depoimentos de cinco delatores da construtora Odebrecht, após um acordo de leniência celebrado com o Ministério Público Federal. Eles afirmaram ter pago R$ 100 mil à sua campanha para deputado federal, que não teriam sido contabilizados. A doação, segundo os delatores, teria sido paga em troca de apoio a Odebrecht Ambiental nas áreas de saneamento básico e infraestrutura no Rio Grande do Norte.

O então governador do Estado e pai do deputado, Robinson Faria (PSD), também foi investigado no mesmo inquérito – ele foi arquivado após pedido da então PGR Raquel Dodge, que alegou não ter encontrado elementos suficientes para o oferecimento de denúncia, “apesar dos fortes indícios da prática do delito”. À época, o deputado disse que prestaria “todos os esclarecimentos à Justiça e ao Ministério Público para provar minha inocência”. A reportagem não conseguiu contato com Faria.

Recurso

À reportagem, o Solidariedade respondeu que os deputados não iriam se manifestar. A defesa do deputado Paulinho da Força disse, após sua condenação no STF, que respeita a decisão, mas discorda da sentença, e afirmou que irá recorrer. 

Contatado, o Progressistas não respondeu. Após a denúncia contra o deputado Arthur Lira ser apresentada, sua defesa disse que a argumentação da PGR “não se sustenta”, que a versão da acusação já foi desmentida por envolvidos, e que a delação que baseia a denúncia já teve “inverdades” reconhecidas pelo Supremo. O deputado não havia se manifestado até a conclusão desta edição.

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